Viagem e Documentário sobre Hushahu

Tata, Tuinkuru, Tashka, Matsini e Hushahu

Right on! let's rock baby


Olha o que se vai fazer Joel? Pegue leve meu amigo.. se não tem reciprocidade hein?


Tata se preparando para a cerimonia de reza


Txanu, preparando rapé


Hushahu pintando Marcia


Estive viajando nestes últimos dias para a Terra Indígena do Rio Gregório. Juntei o útil ao agradável, trabalhar em novo documentário sobre pajelança Yawanawa, com Hushahu especificamente e conversar com as 5 comunidades Yawanawa, que fazem parte da Associação Sociocultural Yawanawa.  Estive também na aldeia Nova Esperança, onde mantive algumas reuniões com os dirigentes daquela comunidade.

Sai desde Rio Branco de carro, nessa época do ano, a estrada de terra é trafegável de uma ponta do acre ao outro. Saímos pela manhã e enfrentamos uma tráfego horrível na travessia do Purus, pois segundo um funcionário do DERACRE, a balsa que faz a travessia do Rio Purus, foi removido para Sena Madureira para servir como “ponte” pro rio Yaco, enquanto fazem reparos na ponte sobre o Rio Yaco. Fiquei chocado, com a quantidade de carros enfileirados esperando para atravessar. Depois de muitas horas de espera seguimos nossa viagem.

Fui pra aldeia juntamente com uma amiga acreana, que vive em Londres, Silvana Ditcham. Conheci Silvana através de um amigo comum, Hylton Philipson. Conheço Hylton desde 98, desde então nossa amizade tem se estreitado e ele tornou-se um grande apoiador do povo Yawanawa. Em Janeiro de 2007, estive em Madrid e Silvana, veio de Londres me encontrar para  a gente conversar e trocar algumas idéias sobre este trabalho que ahora estamos realizando. Projeto este que venho pleiteando há um tempo, mais que nunca tenho tempo de concretizar, pois com muita coisas pra fazer ao mesmo tempo, a gente sempre deixa pra depois e acaba nunca realizando, ficando apenas no mundo das idéias.

 O trabalho se trata de um documentáro sobre Hushahu, a mulher pajé Yawanawa. Mostrar em forma de documentário, a saga que mudou a história recente do povo Yawanawa. Ao se tornar a primeira mulher pajé, ela não apenas quebrou um tabu, ela pisou em terrenos sagrado, que jamais uma mulher antes havia  entrado. Hushahu, é uma inspiração para todas as mulheres do mundo, é uma ativista espiritual, que no calado da noite, toma Uni, e não reza apenas pela comunidade, se não para o mundo inteiro viver em paz em harmonia com as pessoas e com o meio ambiente.

Na subida pelo Rio Gregório, como de praxe, paramos em todas as comunidades. Muita alegria, muita comida e como de sempre uma recepção calorosa. Na aldeia Matrixã, ficamos algumas horas conversando com Tio Chico, professor e liderança desta comunidade. Chegamos bem na hora do banho das criançadas, que se divertiam no rio. Recordei muito de minha infância, na antiga aldeia “Caxinaua”, onde juntamente com outros meninos, a gente passava o dia todo pulando “gangapé”, “plantava bananeira”, “brincadeira da pira”, entre outras brincadeira que a gente inventava para se divertir no rio.

Em nosso primeiro dia viagem, dormimos na “metade” da viagem, não tivemos muita sorte de chegar no mesmo dia, pois o eixo de nosso motor quebrou exatamente num lugar inabitado. Didi, meu cunhado e  nosso motorista, nos deixou na “praia” e foi buscar ajuda na aldeia Amparo, bem abaixo de onde a gente estava. Tivemos que nos acampar no barranco a espera do Didi. Enquanto isso,  aconteceu algo muito inusitado naquela tarde. Bom, já era tarde e não tínhamos idéia, de quando o Didi ia chegar para nos resgatar. Pois ele tinha ido de “varejão” e não era certo se na aldeia Amparo, eles teriam a peça de nosso motor, caso não tivesse por certo na aldeia Matrixã o Tio Chico teria, então tinha que baixar mais uma hora de varejão. Silvana, estava com muito medo que uma onça feroz, pudesse nos acatar.  Disse pra ela, só se fosse muita sorte (ou azar) nosso de ela parecer naquela tarde.
Nunca tinha me passado pela cabeça, que uma onça pudesse aparecer do nada e comer a todos. No entanto, com essa possibilidade levantada por Silvana, me deu até um frio na barriga. Para tranqüilizar ela, falei pra ela, que era impossível uma onça aparecer, pois estávamos na beira do Rio e o barulho dos motores afastavam ela bem pra longe.  Estava escurecendo e Silvana se apavorava ainda mais, então tive uma idéia e compartilhei com o grupo (Silvana, Oana e Maya).
- Bom gente, é o seguinte; aqui na nossa frente temos uma palheira de Uricuri, podemos tocar fogo nela e assim podemos ter luz e calor por toda a noite. Pois essa palheira pode se queimar nos próximos dois dias. No entanto, o problema é, se a gente tocar fogo nela, e o Didi aparecer? Vamos ser mais um a tocar fogo na floresta desnecessariamente? Vamos ser mais um que defende a floresta e toca fogo nela?

O grupo entrou em paranóia total, muita discurssão, nenhuma solução...então decidimos votar quem era a favor e quem era contra. Como éramos 4, deu empate.... Então, entramos no mundo da argumentação, cada um tinha que argumentar e convencer outro, porque era a favor e porque era contra e vice-versa. Depois tínhamos que votar novamente.  Enquanto discutíamos o destino da palheira estava anoitecendo e a gente não estava percebendo.. Tive que alertar o grupo, de que a decisão não podia demorar mais, pois a noite já tinha chegado.. Entramos em votação novamente, um voto apenas decidia o destino da palmeira. Antes do último de nós dar o seu voto decisivo, o motor do Did ecoou pela floresta. Ficamos duplamente felizes, primeiro pelo socorro ter chegado e outro por não tocar fogo na palmeira.

Didi chegou e trocou o motor e seguimos na escuridão da noite rumo a aldeia 7 Estrelas. Dormimos esta noite na aldeia 7 Estrelas, fomos recebidos com muita comida e muita alegria pelo Tio Luís. Estava também acampado na casa do Tio Luís, o Gaspar e uma equipe da FUNASA que estava fazendo colheita de lâminas e medicando as pessoas que estivesse com malária. Muito bom rever meu amigo Gaspar, que há muitos anos a gente não se encontrava. Gaspar é um antigo “soldado da malária”, ou melhor um agente de endemias que por muitos anos subia o Rio Gregório para “burrifar” as casas contra o mosquito da malária. Gente como Gaspar e outros, são gente pioneira que conhecem os povos que vivem na floresta.

Acordamos no 7 Estrelas, com o grito de um grupo de jovens que estavam acordando para “tomar sapo” (ritual do sapu Kapü). Já não participo deste tipo de ritual há mais de 3 anos.. Aos poucos foram chegando e se acomodando na cozinha do Tio Luís.  Acordamos todos para ver os “meninos” tomar sapu. Foi super divertido, demos muita risada e contamos muitas histórias de sapo.

Saímos pela manhã para para chegar cedo  nas comunidades, após viajar 1 hora de barco, encontramos um grupo de mergulhadores da aldeia Tiburcio, Escondido e Mutum, que haviam descido para pescar de mergulho. A pesca de mergulho, é uma pescaria tradicional Yawanawa que acontece todos os anos na época do verão, onde os rios estão de água baixa e bem clara. O “ Anzol de Embicherar Peixe”, é um anzol grande prendido numa madeira de mais ou menos 50 cm de cumprimento, amarrado numa linha de 6 a  a 12 metros.  O melhor lugar para pescar, é onde tem “uma tronqueira”, pois ali pode morar um bom jáu, surubim, bacú,  ou mesmo um “braço de moça”. De posse um anzol, o mergulhador mergulha atrás do peixe. Se “imbicherar” um Jaú de 60 kg., necessita de mais gente para puxar, pois ele força igual a zebu..

Bom, deixamos os mergulhadores e seguimos nosso caminho.

Paramos na aldeia Tiburcio e fumos recebidos por um monte de crianças que vieram nos receber. Conversamos um pouco com João e Itxamã, para nos situar como estavam e todos e o que estavam fazendo, e o que tínhamos ido fazer na comunidade. Depois de uma rápida conversa com a comunidade do Escondido seguimos nosso caminho.

Eram como as 10:00 horas manhã e sol começava a esquentar demais e então tínhamos pressa em chegar no Mutum. Mesmo assim, demos uma parada na aldeia Escondido, onde o Batxon, nos esperava com coco frescos e pronto para tomar. Os cocos, pareciam que tinha caído do céu, pois estávamos cansados e com muita sede. Conversamos com o Batxon por um par de horas e seguimos nossa viagem.

Finalmente chegamos na aldeia Mutum. Localizada as margens direita do Rio Gregório, a aldeia do Mutum, é a sexta aldeia, subindo o Rio Gregório na Terra Indígena do Rio Gregório. A aldeia do Mutum, composto por aproximadamente 80 pessoas. Na década de 90, a aldeia desenvolveu uma importante iniciativa de valorização das medicinas tradicionais. Por 5 anos a comunidade coletou, identificou e catalogou mais de 4 mil pés de plantas medicinais. O jardim de plantas medicinais, denominado como Farmácia Viva, está localizado no meio da aldeia. Este lugar nunca foi tocado, mantêm toda sua superfície natural e vegetal. Na aldeia do Mutum, vive os dois maiores conhecedores da cultura, da história, da espiritualidade Yawanawa. Raimundo Luis Tuinkuru e o pajé Tatá.
Neste ano de 2009, criamos o Centro Cerimonial de Curas e Terapias Yawanawa na aldeia do Mutum. Este centro vem apoiando as atividades de fortalecimento cultural e espiritual das 5 comunidades interligados pela Associação Sociocultural.

Na aldeia Mutum, vive Hushahu, Tatá, Raimundo Tuinkuru e Matsini, protagonistas deste novo documentário que estamos trabalhando..... Vou falar sobre este novo trabalho durante a semana... pois hoje é domingo e vou desfrutar um pouco com minhas filhas e a Laura.. tenham todos um bom domingo...

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