

O caso do carbono indígena e as lições aprendidas
Por Raul Silva Telles do Valle do ISA (www.socioambiental.org )
Vem gerando um zum-zum-zum a história, que veio a público por uma reportagem da Agência de Notícias Pública, do contrato de venda de carbono florestal assinado entre os índios Munduruku e uma obscura empresa irlandesa denominada Celestial Green Ventures. A polêmica gira em torno da legalidade ou não do contrato, pelo qual os Munduruku “vendem” à empresa – por US$ 4 milhões anuais, distribuídos ao longo de 30 anos – o direito de comercializar eventuais e futuros créditos de carbono derivados da conservação da floresta existente em suas terras (TI Munduruku).
Na grande mídia, a história ganhou ares de ameaça à soberania nacional: os índios estariam vendendo, a preço de banana, uma fatia da Amazônia. Para os que estão em busca de razões para tirar terra dos povos indígenas (há várias propostas legislativas nesse sentido), isso seria a demonstração de que não se deve deixar nas mãos de pessoas tão irresponsáveis pedaços tão importantes de nosso território. Muito melhor seria deixar as terras públicas nas mãos de grandes produtores. Estes, embora também vendam muito do que produzem para multinacionais (Bunge, Cargill, Mafrig etc.), o fazem em nome do “progresso”.
Não há, no entanto, qualquer ameaça à soberania nesse caso, pois o que está sendo negociado não é a terra ou a floresta que os índios preservaram. Mesmo que assim fosse, o contrato seria nulo, na medida em que a Constituição Federal impede que as terras indígenas ou suas riquezas naturais sejam alienadas a terceiros (art.231, §4o). Jamais um tribunal validaria tal contrato.
No caso específico, o objeto do contrato é a “cessão”, por parte dos índios, do direito de comercialização de eventuais e futuros créditos de carbono que podem vir a ser gerados, a partir da conservação da floresta existente na TI Munduruku (99,5% da área ainda está preservada). Em linguagem jurídica, diríamos que o contrato não está alienando bens, mas mera expectativa de direito. Isso por dois motivos: a) não existe, neste momento, mercado estabelecido para créditos de carbono derivados de desmatamento evitado; b) mesmo que existisse, da forma como aparentemente foi feita essa “parceria”, nada garante que de fato não haverá aumento do desmatamento futuro na área. Explico.
REDD
A Conferência de Durban sobre Mudanças Climáticas, realizada no final do ano passado, jogou para 2020 o estabelecimento de um novo período de compromisso de redução de emissões de gases de efeito estufa para os países industrializados. Enquanto isso, os países que já cumpriram com suas metas atuais não precisarão aumentá-las e os que não conseguiram cumprir (Japão, Canadá, Austrália) ficarão sem qualquer meta.
Essa indecisão mundial praticamente inviabilizou o nascimento, num curto prazo, de qualquer mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) (saiba mais) que pudesse gerar a demanda por emissão de créditos oriundos de desmatamento evitado. Não há hoje, portanto, regras sobre como poderiam ser emitidos e muito menos um mercado para créditos florestais. O que existe é um ainda incipiente e desregulado mercado voluntário, o qual, embora salutar, aproxima-se muito mais de “marketing verde” do que de um mecanismo de redução de emissões. E que, por essa razão, tem uma demanda ínfima.
Além disso, há outro problema grave na negociação entre essa empresa e os Munduruku. Ela pressupõe que, no futuro, a floresta estará lá e que, portanto, se mercado e regulamentação houver, algum crédito será gerado. Mas o que garante que a floresta continuará preservada? Os US$ 4 milhões? Obviamente, não.
O desmatamento evitado não é o resultado de um contrato ou mesmo de um pagamento. Sobretudo em terras indígenas, ele só pode ser alcançado a partir de um adequado planejamento de uso do território, que possa projetar no futuro a forma como os índios querem lidar com os recursos naturais de suas terras. Na Colômbia esse planejamento tem reconhecimento oficial (planes de vida) e é a base para o repasse de recursos públicos para gestão pelas autoridades indígenas. No Brasil, eles ainda não existem oficialmente, mas poderiam – e deveriam – ser incentivados se a Política Nacional de Gestão Ambiental em Terras Indígenas (PNGATI), elaborada pelo governo federal, em 2010, com ampla consulta às populações indígenas, já tivesse sido aprovada pela presidente da República.
Existem iniciativas positivas de discussão de REDD com povos indígenas em curso no Brasil , que partem da elaboração de um plano de uso do território. Questões como fiscalização das fronteiras, manejo florestal, estrutura das aldeias, transporte, saúde, educação, fortalecimento institucional das associações indígenas e aprimoramento dos sistemas agrícolas são elementos que devem constar de longas e profundas discussões entre os moradores das terras, anciões e jovens, pajés e agentes de saúde. Sem acordos internos e um planejamento adequado, é impossível garantir que não haverá desmatamento, pois, sobretudo com o avanço da fronteira agrícola para as regiões onde estão as terras indígenas, a conservação estará permanentemente ameaçada. O novo Código (des) Florestal em discussão no Congresso Nacional, por exemplo, permitirá que até 20% da Terras Indígenas possa ser desmatado para uso alternativo do solo (pastagens ou atividades agrícolas). Portanto, a conservação florestal (e dos estoques de carbono) é e continuará sendo uma opção dos povos indígenas, não um fato do destino.
Desafio
Uma vez que a maior parte das terras indígenas na Amazônia brasileira já foi oficialmente reconhecida, entramos agora numa nova fase, cujo desafio é justamente apoiar os povos indígenas a gerir suas terras num contexto totalmente distinto daquele que existia quando grande parte de seus atuais líderes nasceu. O avanço das estradas, hidrovias, hidrelétricas, fazendas, madeireiras e cidades traz ameaças, mas também oportunidades, que podem ser bem ou mal aproveitadas. Hoje grande parte da população indígena amazônica ainda vive numa economia de subsistência, com pouquíssimos serviços públicos (saúde e educação) a elas disponíveis e dependendo do assistencialismo da Fundação Nacional do Índio (Funai) ou de projetos-piloto executados em parceria com ONGs para conseguir algum excedente monetário. Essa é uma situação obviamente insustentável num futuro mediato e, se não houver apoio público à opção “uso florestal”, muitos povos podem cair, mais cedo ou mais tarde, no dilema vivido pelos Pareci (MT), que hoje arrendam parte de seu território para sojicultores vizinhos, por absoluta falta de alternativas viáveis.
Fica claro, portanto, que nenhum projeto de REDD terá qualquer chance de sucesso se não se basear num projeto de vida das populações envolvidas, numa opção pela geração de bem-estar a partir do uso sustentável da floresta. Nesse contexto, eventuais créditos de carbono podem ser uma fonte valiosa de recursos para financiar a implementação desse projeto. Não a única, mas uma fundamental.
O caso dos Munduruku aparentemente não tem nada disso. O contrato paira sobre um vácuo. Não houve – pelo menos não veio a público – qualquer planejamento de uso do território, não tem qualquer acordo entre os próprios índios sobre o futuro. Não há uma estratégia sobre como lidar com as cada vez mais frequentes ameaças à floresta que ali existe, nem um plano de como capacitar as novas gerações a usá-la de forma tão parcimoniosa como as anteriores, mas com agregação de valor que lhes permita gerar bem-estar.
Esse contrato seria, portanto, fruto de um oportunismo de uma empresa obscura, que, no fundo, não ameaça o país ou a Amazônia, mas os próprios índios que o assinaram. Ele tenta, na verdade, criar um obstáculo jurídico aos Munduruku caso, no futuro, exista realmente um mecanismo de REDD – e de redução de emissões – em funcionamento no Brasil e no mundo e as florestas de suas terras venham a ganhar algum valor por poder gerar créditos de carbono. Esse contrato obrigará os índios a negociar com essa empresa para poder acessar esse eventual e futuro mercado, já que a ela cederam o direito de gerar e vender esses créditos. Mesmo sendo um contrato evidentemente nulo, por trazer condições abusivas para os Munduruku, ele se tornará um trunfo para a empresa, que poderá atrapalhar qualquer negociação futura dos índios. Quem vai querer comprar créditos disputados na Justiça? A situação é semelhante a que ocorreu no início da internet, quando oportunistas correram para registrar domínios em nome de empresas famosas para depois com elas negociar a preço de ouro.
Portanto, embora descabido o temor com relação à soberania nacional, esse caso traz à tona a necessidade de se avançar numa regulamentação nacional para projetos de REDD que possa separar propostas consistentes de outras vazias, como essa. E uma proposta só pode ser consistente se estiver intimamente atrelada a um plano de uso do território, seja em terras indígenas, seja em outros locais. Por essa razão, urge que a presidente da República assine o decreto que institucionaliza a PNGATI e finalmente dê recursos para que a sociedade brasileira possa investir na boa gestão das terras indígenas, algo fundamental para o futuro do clima na Terra e no Brasil, da Amazônia e dos 205 povos indígenas que nela habitam.
Rio Branco 17/02/2012
Caros companheiros de luta do CIMI da Regional Amazônia Ocidental,
O Movimento Indígena do Acre marcou em sua história várias conquistas que só foram possíveis graças à coragem e à determinação de nossas lideranças em lutar pelos nossos direitos. O movimento exerceu papel importante na articulação e representação política do conjunto dos povos indígenas do Acre e sul do Amazonas. Sempre acreditamos em nosso potencial e em nossa autodeterminação de decidir o futuro de nossos povos.
Tomar conhecimento do conteúdo do Termo de Declaração, prestada pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) – Regional Amazônia Ocidental, junto ao Ministério Público Federal no Acre (MPF-Acre), alegando que as lideranças indígenas e suas organizações estão sendo manipuladas e induzidas pelo Governo do Estado do Acre, pela FUNAI e por organizações não-governamentais, acreanas e internacionais, a aceitarem os projetos de carbono e REDD, nos causou um grande impacto e constrangimento. Mais pelo fato destas afirmações terem sido feitas uma instituição como o CIMI, que foi parceira dos povos indígenas nos anos 80’s na luta pela defesa de seus territórios. A propósito, na época em que as lideranças indígenas lutavam lado a lado com a CPI/AC e o CIMI pela demarcação de seus territórios, foram essas lideranças induzidas a lutar por seus ideais, por uma questão de vida e sobrevivência de nossos povos?
Dizer que os povos indígenas do Acre estão sendo manipulados e induzidos a aceitar um projeto imposto por terceiros é, no mínimo, duvidar de nossa capacidade de interagir com órgãos de governo e da sociedade civil e de traçar planos que possam consolidar nossos direitos territoriais, a gestão de nossos territórios e auto-suficiência econômica e bem estar de nossas comunidades. Nós não precisamos de tutela; buscamos parcerias sérias que reconheçam e respeitem nossa autonomia.
Dentre os pontos principais da oficina ocorrida em Rio Branco, no Centro de Formação dos Povos da Floresta, da CPI/AC, estiveram a ênfase nos direitos dos povos indígenas, o usufruto exclusivo sobre seus territórios, o direito à consulta, livre, prévia e informada, a importância das salvaguardas socioambientais para evitar riscos em projetos de serviços ambientais, e fazer uma reflexão sobre o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA), criado pelo Governo do Acre. Estavam presentes nessa discussão lideranças de 25 terras e 28 indígenas do Acre, além de representantes da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), que têm protagonizado processos de diálogo e de construção de salvaguardas nos planos nacional e internacional.
Ninguém esta forçando as organizações indígenas a nada. Somos lideranças maduras com larga experiência nos movimentos indígena e ambiental no Acre, no Brasil e no mundo. Não venham nos tratar como indígenas tutelados que precisam de ONG’s e ambientalistas para defender seus direitos. Somos povos soberanos, e só a nós, cabe decidir se queremos ou não participar de qualquer projeto que esteja ligado a nossos povos e territórios...
Em nenhum momento decidimos se somos a favor ou contra os projetos de REDD. Primeiro precisamos nos informar e formar nossas comunidades sobre as oportunidades e desafios. Tanto os que são a favor dos projetos de REDD, quanto os contra, têm que ter a seriedade e a ética de repassar informações corretas e estabelecer processos continuados de diálogo. Os que são a favor não podem prometer a redenção para resolver todos os problemas em nossas comunidades; os que são contra, por sua vez, não podem fazer terrorismo com nossos povos, usando como pano de fundo o capitalismo do mundo ocidental, criando um clima de desconfiança e medo, baseado em suposições e inverdades.
O que não vamos admitir e permitir é que nossos povos e nossas organizações sirvam de objeto neste debate acalorado entre ONG’s e governos.
Achamos que o CIMI – Região Norte precisa se reciclar e abraçar a causa indígena e lutar lado a lado com os povos indígenas novamente. Ultimamente, o seu distanciamento está trazendo uma visão distorcida e fora de nossas realidades. Convidamos o CIMI a interagir e participar de nossas reuniões e encontros para ouvir de perto e contar de certo. Não demos qualquer delegação ao CIMI para representar nossos interesses junto ao Ministério Público Federal. Se em algum momento acharmos que nossos direitos estão sendo violados, nós mesmos poderemos acionar o MPF-Acre, para fazer valer direitos consagrados na Constituição Federal e em tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário (a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas).
Esperando poder ter esclarecido nosso posicionamento, assinam esta carta as associações abaixo relacionadas.
Tashka Yawanawa
Associação Sociocultural Yawanawa – ASCY
Sian Kaxinawa
Associação Kaxinawa do Rio Jordão – ASKARJ
Haru Kuntanawa
Assoiação Sociocultural e Ambiental Kuntamanã – ASCAK
Osmildo Kuntanawa
Organização dos Povos Indígena do Vale do Juruá - OPIRJ
Nilson Sabóia Kaxinawa - APAIH
Associação Kaxinawa do Humaitá
Associação de Cultura Kaxinawá do Humaitá
Francisco de Assis Mateus de lima
Shaneihu Yawanawa
Cooperativa Agro-extravista Yawanawa - COOPYAWA
Francisca Arara
Organização dos Pofessores Indígenas do Acre - OPIACRE
Josias Mana Kaxinawa
Associação do Agentes Ambientais do Acre - AIMAIAC
Assis Gomes Kaxinawa
Organização dos Agricultores Kaxinawá da Terra Indígena Colônia 27 - OAKATI 27
Erison Muniz de Oliveira
Associação Indígena Nukini – AIN
Estrela Guia
Hoje acordei com um vazio, pensando nos cantos que sempre houvia, Luiz de Carvalho por certo.
Senti fisicamente sua ausência, mais posso senti de onde estejas, a sua presença a cada dia em minha vida.
Ai que saudades, tantas saudades de tantas coisas que nem posso descrever, apenas sentir. Agora compreendo melhor seus conselhos, sua visão, seu pensamento, sua forma de ver o mundo.. Descance em paz e mande pra gente o espírito consolador que vale a pena fazer as coisas certas.
NOTA DE REPÚDIO
Nós, Organizações não Governamentais do Acre, abaixo assinadas, repudiamos as declarações infundadas, irresponsáveis e descompensadas do Deputado Aldo Rebelo, do PC do B de São Paulo, contra o profissional Fabio Vaz de Lima, em seu discurso na sessão plenária da Câmara dos Deputados, em Brasília, na última terça feira dia 10/05/2011.
O Deputado Aldo Rebelo continua errando. Errou ao querer atacar pessoas de bem, parcela da população brasileira, que defendem qualitativamente crescimento e desenvolvimento com preservação ambiental. Errou ao querer esconder as questões de fundo do PL Código Florestal, objeto de entrega e junção promíscua do deputado aos defensores do agronegócio. Errou ao, mais uma vez, desrespeitar o povo do Acre atacando nefastamente um cidadão que conhecemos de longa data e que, como parceiro, trabalha por um Acre socioambientalmente equilibrado há quase três décadas. O Deputado Aldo Rebelo deveria era dar respostas à sociedade brasileira e por nas sessões da Câmara dos Deputados o debate qualificado e democrático, ao invés do escamoteado, amparado unicamente pelos interesses econômicos. Mas acertou uma: acertou ao sinalizar com ataques, agressão e mentiras, o quanto está despreparado para assumir a liderança de questões tão grandiosas para o Brasil como a revisão do Código Florestal, demonstrando que falta muita democracia correndo em sua veia, e que não tem equilíbrio para continuar como relator de tão importante projeto.
O que motiva acusações irresponsáveis do referido deputado? A quem interessa? Que “novas” características o deputado quer dar a esquerda brasileira? A resposta tem nome e endereço: chama-se agronegócio, setor que o deputado parece defender.
A grandiosa e importante discussão sobre o Código Florestal brasileiro não deveria ser motivo de nota de repúdio desta natureza. O deputado deveria ser responsável e liderar o debate que permitisse que o Brasil despontasse no cenário mundial como país justo econômica, social e ambientalmente. É o que defendemos.
Assinam esta nota:
Associação Sócio- Cultural Yawanawa – ACSY
Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular – CDDHEP/AC
Centro dos Trabalhadores da Amazônia – CTA
Comissão Pró-Índio do Acre – CPI/AC
Grupo de Pesquisa e Extensão em Sistemas Agroflorestais do Acre – PESACRE
Grupo de Trabalho Amazônico – GTA
Rede Acreana de Mulheres e Homens - RAMH
SOS Amazônia
Saudades

NASCE UMA ESTRELA
Vera Olinda
Nascer e morrer são complementariedade e mistérios. O bom é que os mistérios não são desvendados e assim não quebram os encantos da vida. Acredito que os seres encantados, os seres iluminados, nos sustentam na terra. Acho que eles nos mantêm ligados a natureza. São muitos os bons seres iluminados em órbita e, ontem, dia 20 de dezembro de 2010, ganhamos em outro plano a força da proteção do Sr Raimundo Luiz Yawanawa, que fez sua passagem.
Ficamos todos tristes, ficamos com saudade. Mas confortados pela força transformada do “Velho Raimundo”, como era chamado com carinho. Já sabemos de sua trajetória como liderança yawanawa, que lutou pela sua terra, que organizou seu povo para este mundo diverso. Junto com a luta pela terra o “Velho Raimundo” era um homem muito sabido. Sabia muito dos conhecimentos indígenas milenares. Sabia dar conselhos, sabia e gostava de ensinar, sabia ouvir. Outra característica marcante era o encanto absoluto com sua risada altíssima, inconfundível, que muitos de seus muitos filhos herdaram. Alegre, muito alegre. Como um membro nato da família lingüística pano, sua etiqueta de bem receber era absoluta: convidava, oferecia, trocava, informava, encantava o visitante e adorava filosofar. Incrível sua capacidade de entender e explicar as coisas, o mundo, os fatos dos mundos indígena e não indígena.
Bravamente segurou firme um tratamento de quimioterapia em Rio Branco, mas foi em Tarauacá, mais perto de sua terra indígena e de seus parentes, que escolheu virar um ser iluminado. Na verdade ele fez uma parada em Tarauacá, no caminho de volta para sua aldeia atual, chamada Mutum. Ontem, subiu o rio numa canoa, passou pelo Mutum e vai ficar todo o tempo no Kaxinawa, o primeiro lugar do povo Yawanawa, o lugar atual dos sábios e dos seres iluminados.
Um pouco antes de ir por definitivo conversou com Julia, Tashka, Mariazinha, Sales e outros familiares e pediu que segurassem o que ele começou, pediu que cuidassem da terra indígena, que não voltassem atrás, que seguissem seus ensinamentos. Eles disseram que assim será.
O Velho Raimundo Luiz foi uma escola diferenciada para nós todos. Agora virou ser iluminado, ou nasceu estrela, mas sua luz continuará brilhando em florestas e cidades para fazer deste, um mundo mais pró índio.
Nascido em 1929, Raimundo era filho de Antônio Luis, que, ainda rapaz, estabeleceu os primeiro contatos com patrões no alto rio Gregório, e por décadas, no seringal Caxinauá, chefiou as famílias, oriundas dos vários povos, que hoje compõem o povo Yawanawá. Raimundo Luis assumiu esse papel com a morte do pai, mediando relações com os patrões e os missionários que se estabeleceram nas aldeias Yawanawá e Katukina no rio Gregório.21-Dez-2010 O Governo do Estado apresenta seu sentimento de pesar e de solidariedade à família e ao povo Yawanawá pelo falecimento do grande chefe Raimundo Luis Tuin Kuru na madrugada deste dia 20, na cidade de Tarauacá.
A partir de final dos anos 1970, Raimundo Luis liderou luta pelo reconhecimento pela FUNAI de uma terra indígena no rio Gregório. À época, esteve dentre as primeiras lideranças que vieram a Rio Branco participar das assembléias indígenas e reivindicar a demarcação das terras indígenas, a criação de cooperativas indígenas e programas específicos de educação e saúde. Incentivou jovens Yawanawá, como seus filhos Raimundo e Mariazinha Sales Luis e seu sobrinho Biraci Brasil a também virem a Rio Branco para estudar e assumir os desafios abertos com a criação da cooperativa e a organização da produção de borracha e de agricultura.
Com sua extensa família, em 1992, Raimundo Luis acompanhou a mudança do povo Yawanawá da velha sede do seringal Caxinauá para Aldeia Nova Esperança. Junto com os pajés Yawarani e Tatá, teve importante papel nos processos de retomada cultural, por meio dos rituais, cantos e expressões artesanais, dedicando-se a repassar seu vasto conhecimento para as crianças e os mais jovens e participando ativamente da organização dos Festivais Yawa, realizados anualmente em Nova Esperança.
Nos últimos anos estabeleceu moradia na Aldeia Mutum com sua extensa família. Ali abriu e zelou vasto roçado de plantas medicinais, dedicou-se à produção de artesanato tradicional, esteve junto com seus filhos e parentes na criação da Associação Sociocultural Yawanawá e continuou seu trabalho de repasse de conhecimentos, por meio de histórias e cantos, à gerações mais novas.
Com sua morte, o Estado do Acre e o povo Yawanawá perdem uma liderança e um “sábio da floresta” de imenso valor. Aos seus familiares, parentes e amigos mais próximos, nossos votos no sentido de que Deus conforte a todos nesse momento de dor e perda.
Governo do Estado do Acre
Lembranças de cantoria de Raimundo Tuin Kuru com sua filhinha na rede
http://www.youtube.com/watch?v=4NlJ4QHv64A
Eternal Love
In memory of Raymundo Luis Tuin Kuru Yawanawa
1929 to 20/12/2010

My father.
Today he woke up and sleeps for eternity.
My best memories together, comes from my childhood when we used to walk through the forest, opening paths, fishing in the small streams and hunting in the forest. I remember you guiding us, and me and my brothers following you, there was singing and whistling songs that made you remember our ncestors. I loved their whistles cutting through the silence of the forest. I will continue following your footsteps, I will keep listening to your advice and teachings. Sooner or later we will be together
Rest in peace my father.
The designer, who created this Naiwa Rakai, give you a well deserved rest. The Pupuwã, which sits right outside the spirit of the road, announces your arrival with trumpets. That all should come to meet you, hold your arm and take you to the village to meet our sacred ancestors. Sit down and take the place that was prepared for you.
I ask for the moon, which illuminates the darkness in your crosses between the two worlds, show the path where we came from and where everyone will go.
I pray that the sun always shone among the woods, which always filled her heart with hope, show the road of spirits and bring my father to the old village.
I ask the stars to guide your steps, those stars who always were along the nights in the woods.
I ask the forest, you get back from where we came from.
You fulfilled your mission here on earth. You fulfilled as a father, as a man, as a thinker, a visionary, as a great wife traditional Chief of the Yawanawa.
Your legacy will forever be with us.
Life was very generous with you. With the passage of time, life ran, life goes on and not waiting, as it is.
With eternal love,
Your son, Joaquim Tashka Peshaho Yawanawa
Amor Eterno,
Em memória de Raimundo Luis Tuin Kuru Yawanawa
1929 a 20/12/2010

Meu pai.
Hoje acordaste para a eternidade e dormiste para o descanso aqui deste mundo.
Minhas melhores lembranças juntos, vem de infância, quando a gente costumava caminhar pela floresta, abrindo caminhos, pescando nos pequenos igarapés e caçando na mata adentro. Me lembro você a frente, e eu junto com meus irmãos te seguindo, houvindo você cantar e assobiar as canções que te faziam lembrar de nossos antepassados. Adorava seus assobios cortando o silencio da mata. Vou continuar seguindo seus passos, vou continuar ouvindo seus conselhos e ensinamentos. Cedo ou mais tarde estaremos juntos
Descance em paz meu pai.
Que o criador, que criou esse nãiwã raká, te der um descanço merecido. O Pupuwã, que fica sentada bem na porta da estrada dos espíritos, anuncie a sua chegada com buzinas. Que todos venham ao seu encontro, te segurem pelo braço e te levem até a aldeia sagrada para encontrar com nossos antepassados. Senta-te e assuma seu posto que foi preparado para ti.
Peço a Lua, que ilumine a escuridão na sua atravessia entre os dois mundos, mostre o caminho de onde viemos e onde todos iremos.
Peço ao Sol que sempre brilhou entre as matas, que sempre encheu o seu coração de esperança, mostre a estrada dos espíritos e leve meu pai para a aldeia dos antigos.
Peço que as estrelas, guie seus passos, aquelas estrelas que sempre estiveram contigo nas noites enluaradas pela floresta a fora.
Peço que a floresta, te receba de volta, de onde viemos.
Cumpriste sua missão aqui na terra. Cumpriste como pai, como homem de família, como um pensador, como um visionário, cumo um grande sábio chefe Yawanawa.
O seu legado ficará para sempre com a gente.
A vida foi muito generosa com contigo. Com o andar do tempo, a vida correu, a vida segue e não espera, assim como ela é.
Com amor eterno,
Seu filho, Joaquim Tashka Peshaho Yawanawa
Uma nova Camera? Solução ou problema?

Em minha viagem para o Japão no mês de Outubro de 2010, comprei esta camera da foto.. fiquei super empolgado. Detalhe, só vim perceber que o menu da camera estava tudo em Japonês, depois que cheguei no Acre. Coisas da vida... mais estou feliz fazendo o bom uso da camera, isto é o mais importante.
Novo Escritório da Associação Sociocultural Yawanawa – ASCYAWANAWA

Tivemos a honra de inaugurar, no dia 7 de Dezembro de 2010, em Tarauacá, o novo escritório da ASCYAWANAWA. O escritório está localizado no centro da cidade de Tarauacá e oferece bastante facilidade no acesso aos serviços públicos e lomoção pelo centro de Tarauacá. Este escritório servirá com um ponto de referencia para as comunidades Yawanawa que fazem parte da ASCYAWANAWA, quando vêem a cidade tratar de diferentes assuntos de seus interesses na cidade de Tarauacá. Muitos assuntos estão ligados aos problemas de saúde, a educação, recebimento dos vencimentos do INSS, salários de professores, entre outros.
Para aquisição deste escritório, contamos com apoio da AVEDA Corporation Inc., parceria dos Yawanawa, nestes últimos 18 anos.
De volta ao blog
Passei um tempo sem escrever por diversas razões e motivos. Depois um tempão, volto novamente a escrever sobre minhas viagens, sobre a política indígena acreana, acontecimentos nas aldeias e diversas temas ligado a temática indígena.
Não sei exatamente qual o perfil das pessoas que visitam este blog, seja qual for seu aptidão de leitura, obrigado por tomar seu tempo e visita este blog.
Os tempos difíceis ainda não passaram. No entanto, não devemos se atrelar a elas e deixar de continuar vivendo, pois aprendemos ser fortes nos tempos difíceis.
Um abraço forte
Tashka
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